Candidato do PRTB aposta no discurso antissistema e na força das redes sociais; sua presença pode fragmentar o eleitorado de direita e modificar a estratégia dos principais concorrentes
A eleição presidencial de 2026 ganhou um novo elemento de tensão com o registro da candidatura de Pablo Marçal pelo PRTB. O empresário e influenciador conseguiu, por meio de uma liminar da Justiça Eleitoral, autorização para retornar ao partido e registrar sua candidatura à Presidência. A situação, entretanto, ainda não é definitiva: Marçal permanece inelegível em razão de uma condenação eleitoral, e a validade de sua candidatura ainda será analisada pela Justiça Eleitoral.
Mesmo com a questão jurídica pendente, a entrada de Marçal já produz efeitos políticos. Conhecido pela forte presença nas redes sociais e por um discurso de confronto com o establishment político, ele chega à disputa com capacidade de mobilizar um eleitorado que não necessariamente se identifica com os partidos tradicionais.
É justamente aí que está o principal impacto potencial de sua candidatura.
O problema para Flávio Bolsonaro
O primeiro campo diretamente afetado tende a ser o da direita.
Flávio Bolsonaro, candidato do PL, atualmente aparece como o principal adversário de Lula nas pesquisas disponíveis. Levantamentos recentes mostram uma disputa apertada entre os dois em cenários de segundo turno.
A presença de Marçal, entretanto, acrescenta um concorrente com características semelhantes em alguns segmentos do eleitorado: forte presença digital, discurso de oposição ao sistema político tradicional, crítica ao PT e capacidade de comunicação direta com o público conservador.
Isso não significa necessariamente que Marçal vá tirar votos diretamente de Flávio. Mas quanto mais ele crescer, maior será a possibilidade de divisão do eleitorado de direita.
O próprio Marçal afirmou recentemente que pretende participar dos debates e declarou que não pretende ser um obstáculo para Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, disse querer romper a hegemonia do PT e derrotar Lula.
Na prática, porém, uma candidatura não precisa declarar guerra a outra para disputar o mesmo eleitor.
E Lula?
O impacto sobre Lula é mais indireto, mas pode ser igualmente importante.
Se Marçal conseguir conquistar uma parcela significativa dos votos que hoje estão concentrados em Flávio Bolsonaro e em outros candidatos de direita, o resultado pode ser uma maior fragmentação do campo oposicionista no primeiro turno.
E eleição majoritária não é apenas uma disputa para saber quem tem mais votos. É também uma disputa para saber quem consegue chegar ao segundo turno.
Nesse sentido, a divisão da direita pode favorecer Lula caso o presidente consiga manter uma base eleitoral sólida enquanto seus adversários disputam entre si o mesmo espaço político.
Hoje, pesquisas recentes colocam Lula na liderança do primeiro turno e mostram uma disputa bastante apertada com Flávio em determinados cenários de segundo turno.
Marçal pode repetir o fenômeno das redes?
Essa é uma das principais incógnitas da eleição.
Marçal construiu sua projeção política utilizando uma estratégia baseada em vídeos curtos, confrontos, declarações de grande repercussão e comunicação direta com seus seguidores.
A estratégia já demonstrou capacidade de gerar enorme exposição. Analistas têm chamado atenção justamente para essa característica: mesmo antes de uma definição definitiva sobre sua candidatura, Marçal já conseguiu transformar a própria situação jurídica e eleitoral em combustível para sua presença pública.
O desafio agora será transformar audiência digital em votos.
Em uma eleição com grande número de candidatos — o TSE recebeu 13 pedidos de registro para a Presidência —, alguns pontos percentuais podem ser suficientes para mudar completamente a configuração do segundo turno.
A direita diante de um novo dilema
A candidatura de Marçal coloca a direita diante de uma questão estratégica.
De um lado, Flávio Bolsonaro tenta consolidar-se como o principal nome do campo conservador e herdeiro político do bolsonarismo.
Do outro, Marçal apresenta-se como uma alternativa mais independente dos partidos tradicionais e utiliza uma comunicação que dialoga diretamente com o eleitorado insatisfeito com a política convencional.
Há ainda outros nomes disputando o mesmo espaço, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos.
O resultado é um campo oposicionista mais dividido, justamente quando Lula busca manter sua liderança.
O que observar daqui para frente
A pergunta central não é apenas quanto Marçal terá nas próximas pesquisas.
É de onde virão esses votos.
Se Marçal crescer principalmente sobre eleitores que hoje estão com Flávio Bolsonaro, sua candidatura poderá dificultar a chegada do candidato do PL ao segundo turno.
Se conquistar eleitores que estavam indecisos ou pretendiam votar em outros candidatos, o impacto poderá ser diferente.
E existe ainda um terceiro cenário: Marçal pode crescer a ponto de se tornar ele próprio um dos protagonistas da disputa pelo segundo turno.
A primeira pesquisa Datafolha divulgada após a entrada de Marçal na disputa já está sendo aguardada justamente para medir esse novo cenário. O levantamento testa intenção de voto, rejeição e diferentes possibilidades de segundo turno.
Por enquanto, uma coisa parece clara: a entrada de Pablo Marçal acrescenta uma variável importante a uma eleição que já vinha sendo marcada pela polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Se a candidatura for mantida pela Justiça e Marçal conseguir repetir nas eleições presidenciais a força que demonstrou nas redes sociais, a disputa de 2026 poderá deixar de ser apenas uma batalha entre dois grandes polos.
E, em uma eleição apertada, alguns pontos percentuais podem ser suficientes para decidir quem chega — ou não — ao segundo turno.




